sexta-feira, 18 de maio de 2007

Sêneca, o frentista e eu

Parei no posto (Petrobrás, é claro), para abastecer meu carrinho que já estava na reserva. Assim que encostei, atraquei-me com a versão ( em dois volumes) mofadinha de "Cartas Morales A Lucilio" de Sêneca, que acabara de comprar num sêbo no Centro. Alias, em todos os sinais vermelhos do trajeto Centro/Recreio, já vinha Sêneca me resgatando do engarrafamento, do cansaço e, principalmente, de mim mesma. Tão distraída estava eu com as correspondências temáticas de Sêneca para Lucilio ("Todas las cosas, Lucilio, en realidad nos son extrañas, solo el tiempo es bien nuestro..."), que nem percebi que, carro abastecido faz tempo, do lado de fora de minha janela fitava-me , intrigado, o frentista.

- Posso perguntar o que a senhora está lendo?
- É um livro em forma de correspondência ou conselhos, escrito por Sêneca, um estadista romano.
- E o que ele fala?
- Olha, no pouco que deu pra ler ele fala sobre o cuidado que devemos ter com nós mesmos para que sejamos, no final, aquilo que queremos ser. Que tanto eu mesma, quanto os outros, possam me olhar e ver a mim, Liliane, segundo a "forma" de ser que eu decidi ter. Acho que é mais ou menos isso e ele começa falando sobre o tempo que temos que reservar para nós mesmos, pois sem esse tempo não conseguimos a sabedoria necessária para escolhermos nossas "formas". Tempo para leituras, viagens, amigos e ... para a filosofia, que é exatamente questionar e refletir sobre tudo o que vimos, lemos e ouvimos...
- É, ele parece que tá certo.
- Não, não é pra acreditar assim não, é pra fazer pensar.
Daí começou o frentista a filosofar sobre seu tempo, e eu a princípio nervosa com o meu, pois estava atrasada para minha aula da dança que a-do-ro, relaxei e engrenei no papo com meu mais novo amigo.
Não fomos muito longe não, uma vez que a fila crescia atrás do meu carro e o verdadeiro dono do tempo do frentista, seu patrão, já olhava de cara feia.
-Volta mais aqui pra gente continuar, pediu o amigo.
Respondi que voltava sim - mesmo sabendo que muitas vezes a gente diz isso e não volta mais- e me despedi de meu amigo como o faria Sêneca: "cuida de ti" e "conserva-te bom".
Dali pude seguir um pouco mais feliz para minha aula. Nenhum sinal fechou na minha frente. Quanta mágica nos livros e - mais ainda - nas pessoas!

Um comentário:

Jonas Miller disse...

Já sei o que fazer com o tempo reservado pra mim mesmo. Vou acompanhar o seu blog dia-a-dia.
Não sei se Séneca está certo ou errado. Mas sei que o tempo que se passa com bons amigos não é um tempo gasto. É um tempo investido. Um tempo mágico.
Bjs,
Jonas Miller.