terça-feira, 7 de agosto de 2007

Quando a razão faz calar a paixão ou respondendo pra amiga Anne por onde anda meu "eu lírico"



É que meu “eu ético”, aquele ainda com alguma ínfima faculdade de juízo, sabe que terminar a tese é impreterível, inadiável, indiscutível e inegociável.




Ele só abre espaço pro meu “eu filosófico”, tentando fazer da tese um espaço de reflexão e questionamento autônomo, blá, blá...





Mas, por uma questão de autopreservação ( a tese ou a morte!!!), meu “eu filosófico” assumiu algumas posturas ascéticas - no sentido estóico- de buscar a liberdade no autodomínio dos apetites etc.






Daí, que esse “eu- filosófico-estóico” vira meio que um super-ego, que interdita meu “eu-pulsional-desejante” na sua eterna e inútil luta por preencher o vazio original.




E meu pobre “eu-lírico” , que é pura sublimação dos meus desejos, contorno criativo das bordas de meus vazios... está de castigo enquanto a tese não avançar.




p.s. Este post foi uma rápida traição ao corpo ( lugar estreito do hábito) pela imoralíssima alma de meu "eu-transgressor".


Liliane Leroux

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Festival Conexão Periferia Brasil-França



* Juntar Brasil e França, o que haveria de novo aqui? Lugar comum – à primeira vista - absolutamente déjà vu, já que há séculos aportam os franceses em nosso litoral. Da amizade e miscigenação entre franceses e tamoios, seguiram-se, é certo, encontros bem menos agradáveis, como a expulsão dos colonos franceses pelos dois "Sá" – o "Mem" e o "Estácio", e a derrocada dos corsários pela população local, em plena Praça XV.

De lá para cá, porém, muita coisa mudou. E foi da França que aprendemos a duvidar com Descartes, a acreditar com Rousseau, a desconfiar com Foucault. Aprendemos a fazer da memória uma Arte com Proust, de um filme uma Obra com Godard e Truffaut e do amor... um ritual, sob a luz diminuta de um abajour.

Por nossa vez, ensinamos-lhes a terem ginga no samba e na vida. Aos franceses demos Martinho, Chico, Gil, Daniela, Jorge Amado e tantos outros. Demos o sabor da caipirinha, do guaraná e do feijão preto e, acima de tudo, demos, muito a contragosto, a Copa de 98.

Mas tanto o Brasil quanto a França são mais do que isso e muito mais do que expõe nossa vã fotografia de postais. De espaços pouco ou nada percebidos, situados "à margem" ou "fora" dos "ângulos e focos", surgem novas expressões em luzes, cores, movimentos e sons. De espaços que – pela omissão política e pelo olhar embaçado da mídia - são vistos por grande parte da sociedade como estranhos, ameaçadores e antagônicos, jovens tomam a palavra para construírem, a cada vez, uma idéia própria de si e do mundo.

Dizem, porém, que não há nada menos francês do que rotular indivíduos, formando guetos a partir de um fragmento qualquer de sua identidade: sexo, cor, religião, etnia etc. Dizem que seria, tal segmentação, uma redução do direito à igualdade humana e da singularidade de cada cidadão. Então, sem incorrer na perversa "ingenuidade" de escamotear a desigualdade econômica, social, racial e política existente nos dois países, vamos assistir aqui, hoje, mais do que "filmes de periferia". Vamos assistir a filmes. Ótimos filmes! Vamos conhecer mais do que "jovens da periferia". Conheceremos jovens. Jovens franceses de descendência palestina, árabe, africana, brasileira... Jovens brasileiros de descendência branca, negra, indígena, oriental...

Jovens talentosos, criativos, corajosos. Que assumem o posto narrativo. Que se dão o direito à perspectiva.

Agora, o prazer de ouvir suas histórias e a desconfortável, porém deliciosa liberdade de pôr em questão absolutamente tudo, principalmente nós mesmos.


Liliane Leroux

( texto de abertura do catálogo do Festival)