domingo, 16 de dezembro de 2007

Parrhesia


Não me criem como verdade
nas mentiras que precisam ser
Não serei o pára-raios, que segura a tempestade
de tudo o que não querem ver.

Larguem minha mão! Tirem-na do travesseiro

se nele deitam o que nem existe: Consciência?
O peso da que inventam lhes pertence por inteiro!
Não serei "pedigri" para tal decência


Tu, não me ponhas entre ti e teu espelho
se não te agrada o que vês
Antes, pinta-o de um vermelho
Que te ruborize a tez

E tu, acreditas mesmo que crias a moral por mim?
Ou pior, que ela já existia?
Não vêes que começas pelo fim?

Para ti, para ti tão somente a cria !

Ai, mas não creio ser maldade, só tolice
que ainda me ocupes com tal maluquice!
Deixe-me fora desse disse-me-disse!
Se me queres muitas, hoje sou "Alice":

...e o Gato segue distribuindo seus sorrisos por um agrado qualquer; e a Duquesa segue organizando a moral.

Liliane Leroux

sábado, 8 de dezembro de 2007

sábado, 20 de outubro de 2007

Assim dançou




Um sentimento místico de unidade, abandono de si, fusão, desrazão, desmedida ...

Não, não é filosofia não. É só forró. E antes que refutes, demostro, provo e explico:


Hoje descobri
que num forró bem dançado
pode o pé sangrar
e o corpo rir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Só com legenda







- Amor, por favor,
tem com legenda?

Se a edição é recortada,
tanto lapso temporal,
se é plano sem seqüência,
roteiro experimental:
- Amor, por favor, cadê legenda?

Ah! Entendesse eu do gênero
dispensava a narração,
desligava o pensamento,
desfrutava a sensação!

Mas, já que não...
Por favor,
amor só com legenda.

Liliane Leroux

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

incondicional

( para minha avó)


Esperastes eu crescer.
E por mais que doessem as horas,
esperastes.
E como custei a crescer!
Hoje, te amei não por mim -
talvez pela primeira vez.
Hoje, te amei não por mim,
e tanto,
que as palavras me saíram pelo avesso:
- Podes ir.
E te convidei para dançar -
talvez pela última vez.
E sorristes. Para sempre.


Liliane Leroux

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Quando a razão faz calar a paixão ou respondendo pra amiga Anne por onde anda meu "eu lírico"



É que meu “eu ético”, aquele ainda com alguma ínfima faculdade de juízo, sabe que terminar a tese é impreterível, inadiável, indiscutível e inegociável.




Ele só abre espaço pro meu “eu filosófico”, tentando fazer da tese um espaço de reflexão e questionamento autônomo, blá, blá...





Mas, por uma questão de autopreservação ( a tese ou a morte!!!), meu “eu filosófico” assumiu algumas posturas ascéticas - no sentido estóico- de buscar a liberdade no autodomínio dos apetites etc.






Daí, que esse “eu- filosófico-estóico” vira meio que um super-ego, que interdita meu “eu-pulsional-desejante” na sua eterna e inútil luta por preencher o vazio original.




E meu pobre “eu-lírico” , que é pura sublimação dos meus desejos, contorno criativo das bordas de meus vazios... está de castigo enquanto a tese não avançar.




p.s. Este post foi uma rápida traição ao corpo ( lugar estreito do hábito) pela imoralíssima alma de meu "eu-transgressor".


Liliane Leroux

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Festival Conexão Periferia Brasil-França



* Juntar Brasil e França, o que haveria de novo aqui? Lugar comum – à primeira vista - absolutamente déjà vu, já que há séculos aportam os franceses em nosso litoral. Da amizade e miscigenação entre franceses e tamoios, seguiram-se, é certo, encontros bem menos agradáveis, como a expulsão dos colonos franceses pelos dois "Sá" – o "Mem" e o "Estácio", e a derrocada dos corsários pela população local, em plena Praça XV.

De lá para cá, porém, muita coisa mudou. E foi da França que aprendemos a duvidar com Descartes, a acreditar com Rousseau, a desconfiar com Foucault. Aprendemos a fazer da memória uma Arte com Proust, de um filme uma Obra com Godard e Truffaut e do amor... um ritual, sob a luz diminuta de um abajour.

Por nossa vez, ensinamos-lhes a terem ginga no samba e na vida. Aos franceses demos Martinho, Chico, Gil, Daniela, Jorge Amado e tantos outros. Demos o sabor da caipirinha, do guaraná e do feijão preto e, acima de tudo, demos, muito a contragosto, a Copa de 98.

Mas tanto o Brasil quanto a França são mais do que isso e muito mais do que expõe nossa vã fotografia de postais. De espaços pouco ou nada percebidos, situados "à margem" ou "fora" dos "ângulos e focos", surgem novas expressões em luzes, cores, movimentos e sons. De espaços que – pela omissão política e pelo olhar embaçado da mídia - são vistos por grande parte da sociedade como estranhos, ameaçadores e antagônicos, jovens tomam a palavra para construírem, a cada vez, uma idéia própria de si e do mundo.

Dizem, porém, que não há nada menos francês do que rotular indivíduos, formando guetos a partir de um fragmento qualquer de sua identidade: sexo, cor, religião, etnia etc. Dizem que seria, tal segmentação, uma redução do direito à igualdade humana e da singularidade de cada cidadão. Então, sem incorrer na perversa "ingenuidade" de escamotear a desigualdade econômica, social, racial e política existente nos dois países, vamos assistir aqui, hoje, mais do que "filmes de periferia". Vamos assistir a filmes. Ótimos filmes! Vamos conhecer mais do que "jovens da periferia". Conheceremos jovens. Jovens franceses de descendência palestina, árabe, africana, brasileira... Jovens brasileiros de descendência branca, negra, indígena, oriental...

Jovens talentosos, criativos, corajosos. Que assumem o posto narrativo. Que se dão o direito à perspectiva.

Agora, o prazer de ouvir suas histórias e a desconfortável, porém deliciosa liberdade de pôr em questão absolutamente tudo, principalmente nós mesmos.


Liliane Leroux

( texto de abertura do catálogo do Festival)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

em paz ciente


Calar por quê?

Se é dali que vem meu riso

e não nasci para chorar.


Pensar em quê?

Se é ali que está meu sonho

e nem desejo acordar.


Esperar para quê?

Se é lá que eu me perco

do que não quer me largar.


Fazer o quê?

Se é destino ou desatino

como saber sem tentar?



Liliane Leroux

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Para Carol e todas nós


Quem disse que vem do Outro a nossa torre até o céu?

Fazendo de cada encontro tão complicada Babel!

Repita comigo D.Maria, pelo menos 1000 vezes por dia:

o abismo é inescapável, a língua não é comum

logo, só há sonho durável na obra de cada um.

Não faz do Outro complemento, nem pedaço, nem sofrer.

Não faz do Outro projeto, faz dele apenas prazer.


Liliane Leroux


segunda-feira, 16 de julho de 2007

Plongée dans contra-plongé ( Mergulho em contra-plano - inspirada por texto do Xico Sá)

Causar tua “pequena morte”

descendo, lentamente.

Provando cada pedaço do caminho.

Ao chegar: faço-te ritual, eu monja

faço-te belo e sublime, eu artista.

Teu prazer escrevo, dirijo e capturo

te olhando em contra-plano

de onde mergulho.

E assino em ti meu nome com saliva e riso.




Liliane Leroux


segunda-feira, 2 de julho de 2007

"Como é que conjuga?"

Conheceram-se na festa.

Ela, assim que o viu, achou que ele era mais-que-prefeito.

Ele, por um segundo, sonhou viver com ela algum futuro.

Mas ele não era do tipo que se arriscava no infinitivo

e ela ainda convalescia de seus pretéritos, tão imperfeitos

Deixaram pra lá no condicional e deram tchau.



Liliane Leroux

domingo, 24 de junho de 2007

Skrik

Uma saudade enorme do tempo em que morei em Oslo

congelou por alguns minutos

o tempo no qual apenas "a tese" tem morado em mim.

A porta da caixa de fotos, aberta,

dispensa 19 anos e milhares de quilômetros

provando que o tempo é preterível

e subo no trem que leva ao museet.

Eu, essa que vai, reencontro lá no velho grito de Munch

a redenção para os novos silêncios daqui:

eu, esta que fica, suspensa na impossibilidade

entre a mão direita arrastada pelo que chamam “teoria”

e a esquerda agarrada ao que chamo “vida”.



Liliane Leroux


domingo, 17 de junho de 2007

Ouvindo estrelas em céu nublado

Não sei se meu ouvido me odeia

ou se quer ser engraçado.

Ele escuta o que bem quer

e nunca o que foi falado.


Quantas vezes me engana

este ouvido tão sacana:

Se me dizem poesia, ele sai de sintonia

mas dissimula em prosa, a fala tola e vazia.


Com isso me põe, o ouvido, em tamanha enrascada

pois a resposta que dou, é quase sempre a errada.

Mas deixa estar, meu ouvidinho, que entendi o corolário

e agora a tudo que escuto, vou e respondo ao contrário!


Liliane Leroux


sábado, 16 de junho de 2007

Afirmando a tônica

Irritadíssima por estar meio de "molho" desde que pincei a coluna no domingo, na quinta voltei para a dança, na sexta arrisquei uma malhação leve e hoje decidi pedalar. Na academia, descubro que a aula de bike seria uma maratona, em comemoração ao dia dos namorados (sim, riam, cada um comemora como pode...).


Pensei: pedalo o tempo que a coluna agüentar e saio fora.

Resumo: ganhei a maratona!

Prêmio: camiseta e foto no mural

Não, amigos, antes que me julguem mal, de antemão afirmo que não fui movida por nenhum furor competitivo, não. Alias, eu não sou competitiva assim. Vou atrás do que quero, brigo, mas, diante de um objetivo em comum, não disputo com ninguém. Pelo contrário, sou capaz de ceder, magnanimamente, a vez. Então, como explicar tamanha maluquice? Pelas palavras do professor?

- Você é sinistra mesmo - disse rindo ao final, conhecendo meu delicado estado.

Não. Fico com a explicação da competente e divertidíssima fisioterapeuta que tive a sorte de encontrar:

- Você é toda tônica.

Adorei! Quer dizer que eu sou a ênfase!!!

terça-feira, 12 de junho de 2007

Acreditei...


Tentando entender minhas repetições, vasculhei Freud, arrisquei Lacan. Aí, vem Ana Cristina Cesar e me explica, simples assim:




Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

Ana C.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Peixe, pirão ou caldinho?


Entrando no supermercado Zona Sul, totalmente distraída em minhas divagações sobre a miséria da condição humana... deparo com o seguinte cartaz:



NAMORADO
inteiro

1
8,90 kg


Parei e fiquei um bom tempo em frente ao cartaz, incrédula!!!! Um
namorado por INTEIRO!!! Será que esse é o prato que eu quero? Confesso que me deu uma aguinha na boca, mas pensei: saberia eu preparar isso? Temperar bem temperado, manter sempre aquecido em fogo alto - nada de banho maria! Calcular o rendimento certo para nem sobrar - senão enjoa ou estraga - nem faltar - senão ainda resta a fome... Dá um trabaaaalho danado, mas... não aplacaria aquele vaziozinho no coração, errr, hmm, desculpe, quero dizer... no estômago, rss.

Então? Um peixão de bom tamanho deve ter... uns setenta e tantos quilos, não? Será que vale o investimento?


sexta-feira, 18 de maio de 2007

Sêneca, o frentista e eu

Parei no posto (Petrobrás, é claro), para abastecer meu carrinho que já estava na reserva. Assim que encostei, atraquei-me com a versão ( em dois volumes) mofadinha de "Cartas Morales A Lucilio" de Sêneca, que acabara de comprar num sêbo no Centro. Alias, em todos os sinais vermelhos do trajeto Centro/Recreio, já vinha Sêneca me resgatando do engarrafamento, do cansaço e, principalmente, de mim mesma. Tão distraída estava eu com as correspondências temáticas de Sêneca para Lucilio ("Todas las cosas, Lucilio, en realidad nos son extrañas, solo el tiempo es bien nuestro..."), que nem percebi que, carro abastecido faz tempo, do lado de fora de minha janela fitava-me , intrigado, o frentista.

- Posso perguntar o que a senhora está lendo?
- É um livro em forma de correspondência ou conselhos, escrito por Sêneca, um estadista romano.
- E o que ele fala?
- Olha, no pouco que deu pra ler ele fala sobre o cuidado que devemos ter com nós mesmos para que sejamos, no final, aquilo que queremos ser. Que tanto eu mesma, quanto os outros, possam me olhar e ver a mim, Liliane, segundo a "forma" de ser que eu decidi ter. Acho que é mais ou menos isso e ele começa falando sobre o tempo que temos que reservar para nós mesmos, pois sem esse tempo não conseguimos a sabedoria necessária para escolhermos nossas "formas". Tempo para leituras, viagens, amigos e ... para a filosofia, que é exatamente questionar e refletir sobre tudo o que vimos, lemos e ouvimos...
- É, ele parece que tá certo.
- Não, não é pra acreditar assim não, é pra fazer pensar.
Daí começou o frentista a filosofar sobre seu tempo, e eu a princípio nervosa com o meu, pois estava atrasada para minha aula da dança que a-do-ro, relaxei e engrenei no papo com meu mais novo amigo.
Não fomos muito longe não, uma vez que a fila crescia atrás do meu carro e o verdadeiro dono do tempo do frentista, seu patrão, já olhava de cara feia.
-Volta mais aqui pra gente continuar, pediu o amigo.
Respondi que voltava sim - mesmo sabendo que muitas vezes a gente diz isso e não volta mais- e me despedi de meu amigo como o faria Sêneca: "cuida de ti" e "conserva-te bom".
Dali pude seguir um pouco mais feliz para minha aula. Nenhum sinal fechou na minha frente. Quanta mágica nos livros e - mais ainda - nas pessoas!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Coisas de geminiana


Geminiano não é, de jeito nenhum, indeciso - é que nossa cabeça fervilha com tantas coisas! Geminiano não é inconstante - é que geminiano ama quase tudo e faz de tudo coisa interessante.
Para geminiano não tem ponto final nunca! Somos feitos de interrogações; exclamações; ponto e vírgulas; reticências - sim, reticências sempre; e muitos, muitos dois pontos - travessão na outra linha.

Dieta Líquida


Procurei qual a razão
do descompasso evidente
contratempo diferente
do ritmo sagrado, indecente
em que a gente combina tão bem.

Descompasso, desencontro num Tempo
que pra você é passatempo
e se eu descuido um só momento
confunde o meu, desperta-dor.



Liliane Leroux

Theoria e Poiésis


Pensa, menino, pensa,
olha pra vida e pensa,
mas não responde!
Não conclui!

O pensamento que vem da vida
é só o pensamento que já estava lá
( e assim segue sempre o mesmo).
O pensamento que vem da vida
e visita outros que já pensaram,
é o que tem a coragem de se largar.

Pensa, menino, pensa,
abre seu mundo,
pois a verdade não é nada mais
do que o prazer de pensar,
de novo e de novo. Ainda bem!


Liliane Leroux

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Me ajuda Narciso ou sobre as dificuldades de começar um blog


Nunca pensei que começar um blog fosse tão difícil! Escrevi uma postagem, desisti, deletei; escrevi outra: mesmo destino. Na verdade o difícil é decidir o quanto e como se expor. Como quero me mostrar ( se é que eu quero!), em quais conteúdos, quais sentidos, qual estilo? A que é que se destina um blog, afinal? Desabafos, confissões, revelações, tagarelices, manter o mundo atualizado sobre minha vida jet-set, meus sentimentos? Saciar o quê??? Minha fome de palavra ou a humanidade entediada? Tô descobrindo, tô descobrindo ainda... Vem Narciso, sai daí do fundo e me ajuda nessa!